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Durante muito tempo, a gestão do transporte foi tratada como uma equação relativamente simples: prazo, origem, destino e, principalmente, preço. Hoje, essa lógica já não dá conta da complexidade do setor.
Com mais regulação, a pressão crescente sobre os custos, a escassez de mão de obra e a digitalização das operações, o transporte rodoviário de cargas entrou em um novo ciclo. Um ciclo em que contratar frete deixou de ser uma decisão tática e passou a ser uma escolha estratégica.
Em um artigo recente, conversamos com José Aires Amaral Filho, da ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), sobre como a regulação — em especial o piso mínimo de frete — vem redesenhando as bases do setor. Mas, na prática, como essas mudanças chegam à operação? Como impactam as decisões do dia a dia, as negociações e o equilíbrio entre custo e serviço?
Para entender esse movimento, reunimos diferentes visões: a de Rejane Vasco, da BBM Logística, e a de João Nascimento, diretor de logística da Unilever.
O que emerge é um ponto em comum: neste momento o frete é uma variável estratégica que envolve risco, previsibilidade, capacidade operacional e, principalmente, competitividade diante de tantas ofertas de produtos similares e da ansiedade do e-commerce. Deixou de ser visto somente como uma linha de custo. É nesse contexto que emerge o que especialistas já chamam de uma “nova gestão do transporte”.
Regulação, custos e novas exigências da nova gestão do transporte
Nos últimos anos, uma combinação de fatores regulatórios e econômicos passou a reconfigurar a lógica de contratação no transporte rodoviário de cargas. Para Rejane Vasco, esse movimento não é pontual, mas estrutural.
A intensificação da fiscalização eletrônica do piso mínimo de frete, por meio de mecanismos como MDF-e (Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais) e CIOT (Código Identificador da Operação de Transporte) tornou o cumprimento da legislação um requisito inegociável na contratação de transportadores autônomos (TAC).
Na prática, isso traz mais coerência ao mercado, mas também exige das transportadoras um nível muito maior de controle, tecnologia e análise constante dos seus custos.
Ao mesmo tempo, novas exigências ampliam a responsabilidade sobre quem opera. A vinculação obrigatória de seguros ao registro na ANTT, por exemplo, cria uma barreira importante para atuação no setor. Sem a regularização, o transportador simplesmente não pode operar — o prazo para a regularização estava previsto até março de 2026.
Esse cenário pode trazer um efeito colateral relevante: o risco de redução na oferta de motoristas autônomos. “Muitos já enfrentam dificuldades para cobrir custos operacionais e pessoais, e o aumento das exigências pode acelerar a saída desses profissionais da atividade”, diz Rejane. Essa possível restrição de capacidade se soma a um contexto já pressionado por aumento de custos, e a constante observância sobre o preço do diesel.
Mais custos, mais pressão e uma operação mais complexa
Dados recentes indicam que o frete não acompanhou, na mesma velocidade, a evolução dos custos operacionais. A defasagem média do frete ao final de 2025 chegou a 10,1%, enquanto os custos aumentaram nos últimos 36 meses – principalmente com caminhões (23,3%) e mão de obra (20%).
Ao mesmo tempo, fatores como concessão de prazos, isenções comerciais e custos financeiros seguem comprimindo as margens.
E o horizonte aponta para ainda mais complexidade para os empresários e gestores do setor.
A ReformaTributária deve exigir revisões profundas nos processos operacionais, fiscais e sistêmicos das transportadoras, especialmente com a mudança do local de recolhimento para o destino da operação. Isso implica investimento em tecnologia, capacitação e revisão de parcerias, especialmente no last mile.
Além disso, novas questões trabalhistas e regulatórias — como o debate sobre a redução da jornada de trabalho e a possível entrada da NR-1 com foco em saúde mental — ampliam o olhar sobre gestão de pessoas em um setor historicamente pressionado por prazos cada vez mais curtos e alta produtividade operacional.
Segundo Rejane, são mudanças que podem contribuir para melhor qualidade de serviço e retenção de profissionais, mas também traz novos desafios, como possíveis afastamentos, passivos jurídicos e impactos previdenciários. “É importante também ressaltar a atual escassez de pessoal para as funções básicas do setor”, diz.
Do preço à previsibilidade: a virada na visão dos embarcadores
Se do lado da oferta o cenário se torna mais desafiador, do lado da demanda a mudança é igualmente significativa. Para João Nascimento, a contratação de frete deixou de ser uma discussão puramente de preço. Passou a ser uma discussão de previsibilidade, capacidade e resiliência operacional — especialmente em cadeias de abastecimento de alta velocidade, como no setor de bens de consumo.
Nesse contexto, qualquer ruptura no transporte impacta diretamente a disponibilidade de produtos no ponto de venda. Isso leva os embarcadores a buscarem modelos mais equilibrados, combinando contratos estruturais com parceiros estratégicos e flexibilidade para absorver variações de demanda.
Na prática, o transportador deixa de ser apenas um fornecedor e passa a ocupar um papel crítico na continuidade do negócio. E essa mudança altera diretamente os critérios de escolha.
O novo critério de escolha e o desafio de sustentar o nível de serviço
O preço continua importante, mas já não sustenta sozinho a decisão. “Hoje, fatores como confiabilidade operacional, capacidade de execução e segurança nas estradas são temas que estão na mesa. Na prática, buscamos parceiros que consigam garantir custos competitivos em relação ao mercado, consistência no nível de serviço e flexibilidade para absorver variações de volume”, diz João.
Nesse cenário, transportadoras que oferecem visibilidade em tempo real, integração de sistemas e gestão por indicadores saem na frente.
Ao mesmo tempo, o nível de exigência dos embarcadores aumentou. Monitoramento constante de SLA (Acordo de Nível de Serviço), comunicação mais próxima, uso intensivo de dados e cobrança por planos de ação diante de desvios passaram a fazer parte da rotina. Critérios de ESG também ganham espaço e, em muitos casos, já são pré-requisito para participação em grandes contratos.
O ponto é que sustentar esse novo nível de exigência tem se tornado cada vez mais desafiador.
No centro dessa estrutura está um equilíbrio conhecido — custo, nível de serviço e risco — que agora opera sob muito mais pressão. Operações de last mile mais caras, aumento de agendamentos, baixa adoção de tecnologias de roteirização e perda de produtividade impactam diretamente nos resultados.
Além disso, o setor enfrenta desafios estruturais relevantes, como alta rotatividade de mão de obra, dificuldade de atração de profissionais e concorrência com modelos mais flexíveis, como o e-commerce e a chamada “uberização”.
Em períodos de alta demanda, como datas sazonais do varejo, essas fragilidades ficam ainda mais evidentes. E isso impacta diretamente a disponibilidade de capacidade e a qualidade da operação. Diante disso, uma mudança de mentalidade começa a se consolidar.
A logística como alavanca estratégica
A logística como uma alavanca estratégica de competitividade implica em revisões estruturais importantes. Estamos falando de:
- Redesenho da malha logística;
- Maior integração entre áreas;
- Uso intensivo de tecnologia;
- Visão mais ampla sobre o custo total da cadeia;
- Maior visibilidade e controle operacional;
- Gestão rigorosa de custos e compliance;
- Construção de parcerias mais estratégicas e resilientes.
Mais do que isso, exige relações mais maduras entre embarcadores e transportadoras. Baseadas não apenas em preço, mas em parceria, previsibilidade e capacidade de adaptação.
No fim, a nova gestão do transporte não é apenas uma resposta às mudanças do setor, mas sim uma necessidade. Porque, no contexto atual, é preciso garantir, prever, adaptar e sustentar operações. E isso exige muito mais do que preço.
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As transformações do transporte e da logística têm sido tema recorrente nos encontros promovidos pela CICLO Academy, que reúne especialistas, executivos e lideranças do setor para discutir os desafios e tendências da cadeia logística.
Essas discussões continuam nos próximos encontros. Acompanhe a programação e participe das próximas conversas!
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