🚀41º Simpósio Supply Chain O PODER DA DECISÃO NA NOVA CADEIA DE VALOR Mais pressão por eficiência, IA acelerada e decisões cada vez mais críticas. O Simpósio Supply Chain 2026 reúne executivos que lideram essa transformação para tornar a cadeia mais conectada, inteligente e competitiva — do planejamento à execução. Dois dias de imersão estratégica. Decisões que geram impacto real.
Durante muito tempo, a estrutura tributária ajudou a determinar onde empresas brasileiras instalavam fábricas, centros de distribuição e outras operações. Incentivos fiscais entravam na conta ao lado de frete, mão de obra, infraestrutura, proximidade de fornecedores e acesso ao mercado consumidor. A Reforma Tributária já começou a alterar essa lógica.
As discussões do 40º Simpósio Supply Chain, promovido pela CICLO Academy, mostraram que reduzir a Reforma Tributária a uma discussão sobre impostos é enxergar apenas uma parte da transformação. Compras, fornecedores, contratação de serviços, precificação, estoques, distribuição, localização de CDs e fábricas, fluxo de caixa e nível de serviço também entram nessa equação.
Neste conteúdo, vamos entender como as novas regras tributárias podem mudar decisões que estão no centro do supply chain — de quem comprar e como contratar até onde produzir, armazenar e distribuir — e por que olhar apenas para a adequação fiscal pode fazer as empresas perderem uma parte importante dessa transformação.
Na prática, a Reforma substitui PIS, Cofins, ICMS e ISS pela CBS (federal) e pelo IBS (estadual e municipal), em um modelo de não cumulatividade ampla: o tributo pago em cada etapa gera crédito para a etapa seguinte. Isso faz com que o regime do fornecedor passe a pesar no custo de quem compra. Ao mesmo tempo, os incentivos de ICMS, que por décadas orientaram decisões de localização, perdem força ao longo da transição, que vai até 2033.
Quando o incentivo muda, o mapa da cadeia entra em revisão
Uma das consequências mais relevantes da Reforma Tributária para o supply chain está no desenho da malha. No painel “Reforma Tributária: liderança e colaboração com os agentes da cadeia”, o debate mostrou que, à medida que a lógica dos incentivos muda, empresas precisam reavaliar onde faz sentido produzir e distribuir. E existe um complicador: uma fábrica ou um centro de distribuição não muda de endereço da noite para o dia.
Na Campari, essa discussão já chegou à alta liderança. Renata Fioravante, Senior Executive Director da companhia, contou que a fábrica de Recife/PE e o centro de distribuição de Extrema/MG operam em localidades com incentivos fiscais. Por isso, a empresa começou sua jornada de preparação ainda em 2025.
“O que realmente destravou foi a gente já levar essa discussão para dentro do board da empresa, principalmente junto com o time tributário e financeiro, para ter um alinhamento em conjunto do que seria um roadmap da Reforma Tributária, olhando a cadeia como um todo”, disse a executiva.
Segundo Renata, a companhia percebeu que não funcionaria ter cada área analisando isoladamente uma parte do problema: o fiscal olhando o tributo, o financeiro a precificação e supply chain a malha. Era necessário entender os impactos da Reforma sobre a cadeia como um todo.
A experiência traduz uma mudança na própria pergunta que orienta as decisões. Não se trata apenas de saber quanto vamos pagar de imposto, mas também de entender qual configuração de cadeia continuará fazendo sentido para o negócio.
Fornecedor mais barato ainda é o mais competitivo?
A Reforma também abre espaço para revisar decisões de compras que durante anos foram tratadas como premissas.
Na palestra “Otimização da malha global de suprimentos: estratégias para competitividade e resiliência”, Leonardo Benites, Managing Director/Partner da Andersen Consulting, discutiu como decisões sobre fornecedores, produção, pontos de entrada, centros de distribuição, fábricas e movimentação de materiais precisam ser analisadas de forma integrada.
“O custo unitário não é necessariamente o menor custo total. Então, quando a gente fala do processo de compras, em que eu estou batalhando redução de custo em função do menor custo unitário, não necessariamente ele é o mais eficiente e não necessariamente ele vai ter o menor custo total”, disse Benites.
Em um dos exemplos apresentados, uma operação que comprava integralmente de fornecedores globais tinha prazo médio de abastecimento de 90 dias. Ao testar outra configuração, a redução desse prazo diminuiu a necessidade de estoque e levou a um custo total menor.
A lógica é relevante para o cenário da Reforma: estoque, capital empregado, transporte, risco de ruptura, nível de serviço e efeitos tributários também interferem no custo real da decisão.
O risco do fornecedor entra ainda mais na conta de Compras
A mudança não está apenas em quem comprar, mas também em como gerir os fornecedores existentes, segundo os palestrantes. O painel sobre a discussão do novo modelo de créditos tributários colocou a preparação fiscal dos fornecedores como uma questão estratégica para Compras.
Carlos Itani, Executive Director/Supply Chain & Operations da EY e moderador do painel, chamou atenção para o fato de que a criticidade de um fornecedor não depende apenas do volume de compras. “Um parafuso pode parar uma máquina que pode parar uma empresa. Uma empresa de ônibus pode parar uma planta”, exemplificou.
Renata Fioravante, da Campari, levou a discussão para a preparação dos parceiros e defendeu que as empresas conversem com seus principais fornecedores, aproximando os times fiscais dos dois lados. A executiva sugeriu a realização de encontros entre as áreas envolvidas para avaliar os impactos da Reforma sobre relações já estabelecidas.
“É trazer o parceiro para uma conversa e entender como eles estão se preparando. Fazer mini-workshops entre as áreas envolvidas, para também entender se você tem um contrato a médio e longo prazo, pois isso pode impactar, inclusive, as cláusulas contratuais.”
Na prática, preço, qualidade e prazo continuam fundamentais, mas a capacidade de adaptação do fornecedor e os efeitos tributários e financeiros daquela relação passam a pesar mais na gestão de risco da cadeia.
Como comparar propostas de fornecedores em regimes diferentes?
Antônio Costa, Gerente de Contratação de Serviços e Suporte à Operação da Petrobras, explicou que a companhia está olhando para como as novas regras podem alterar a comparação entre propostas, especialmente quando fornecedores enquadrados em diferentes regimes participam de uma concorrência.
Segundo ele, a área está trabalhando em quatro frentes:
1) Revisão dos contratos existentes;
2) Definição dos novos critérios de julgamento das propostas;
3) Comunicação com o mercado fornecedor;
4) Gestão da mudança dentro da companhia.
“Estamos avaliando qual vai ser a política de revisão dos contratos e, claro, vamos informar isso aos fornecedores de uma forma muito transparente e à luz do BID [processo de concorrência para contratação] do qual participaram”, disse Costa.
Ele também chamou atenção para a necessidade de deixar claro ao mercado como a empresa passará a avaliar a melhor proposta. O efeito prático é relevante: se a condição tributária de cada fornecedor interfere no custo efetivo da contratação, comparar propostas apenas pelo valor apresentado pode deixar de revelar qual delas é realmente mais vantajosa para a empresa.
Para Compras, acompanhar essa preparação passa a fazer parte também da continuidade do fornecimento. Grandes organizações podem ter estrutura para adaptar sistemas e processos rapidamente, enquanto fornecedores menores podem avançar em ritmos diferentes.
Fechar, manter ou mover um CD?
A revisão dos incentivos também não significa que a resposta será simplesmente fechar centros de distribuição e aproximar tudo dos grandes mercados consumidores. Jorge Damião, Head of Supply Chain for Latin America da DSM-Firmenich, trouxe para a discussão outra variável: o que cada negócio entende por nível de serviço. “Nível de serviço é confiabilidade. Você pode prometer entregar em 15 dias, mas entregue no 15º dia, não no 25º”.
Segundo ele, abrir mão de um CD e aumentar a distância até determinado cliente pode fazer sentido se uma estrutura mais centralizada for eficiente e ainda conseguir garantir a entrega prometida. Em alguns mercados, a confiabilidade pode ser mais importante do que a velocidade.
Isso mostra por que redesenhar a malha exige uma conta mais ampla. Tributação, frete, estoque, infraestrutura, disponibilidade de transporte, prazo de entrega, nível de serviço, capital empregado e estratégia comercial precisam ser avaliados em conjunto.
E essa conta não depende apenas da própria empresa. Renata contou, por exemplo, que um fornecedor da Campari beneficiado por incentivos no Rio de Janeiro já havia informado que pretendia mudar sua localização, embora ainda não soubesse para onde. Ou seja: fornecedores, distribuidores e clientes também podem rever suas operações.
Um dos resumos do painel foi: A mudança não é só na nossa empresa. É um alvo móvel no fornecedor, no cliente, tudo quanto é lugar. E, nesse contexto, o desenho da malha deixa de ser uma decisão estática e passa a exigir acompanhamento e revisões mais frequentes.
ERP atualizado não significa empresa preparada
Esse foi um dos alertas trazidos pelo Simpósio. Na pesquisa exclusiva apresentada por Marcelo Steffen, Associate Partner da McKinsey, a preparação das empresas para a Reforma aparecia concentrada principalmente na atualização dos sistemas fiscais, enquanto mudanças relacionadas à malha produtiva e logística, fornecedores e área comercial ainda não haviam avançado na mesma proporção.
“Em Reforma Tributária, o maior nível de preparação é simplesmente a preparação do ERP e dos sistemas fiscais. Então, toda a preparação da malha produtiva, logística, fornecedores e comercial ainda não entrou na mesa.”
Segundo Steffen, há uma diferença importante de tempo entre essas decisões. Adaptar sistemas é uma frente; redesenhar uma cadeia é outra. A preparação de uma nova malha é estrutural e pode levar anos.
Nesse contexto, esperar todas as respostas para começar a discutir fábricas, CDs, fornecedores e contratos também traz risco. Algumas decisões exigem investimento, planejamento e antecedência.
Afinal, o que a Reforma Tributária muda para supply chain?
As discussões do 40º Simpósio Supply Chain mostram que se preparar para a Reforma Tributária vai muito além de adequar sistemas e calcular novos tributos. O desafio está em entender como as novas regras podem alterar decisões construídas ao longo de anos sobre fornecedores, contratos, custos, fábricas, centros de distribuição, estoques e nível de serviço.
Para o supply chain, isso significa voltar a perguntas que talvez parecessem resolvidas.
- Onde produzir?
- Onde armazenar?
- De quem comprar?
- Como contratar?
- Que fornecedores precisam ser desenvolvidos?
- Que contratos precisam ser revistos?
- E qual será o custo total de cada configuração?
Há também uma discussão que não cabe em uma única área. “É importante que a empresa esteja toda integrada, que todos participem dessa mudança e não seja uma coisa meramente da contabilidade e da área tributária. É uma mudança que envolve toda a empresa”, disse Antônio Costa, da Petrobras.
Segundo os palestrantes, a Reforma pode colocar diante das empresas uma oportunidade pouco frequente: revisitar escolhas que durante anos foram tratadas como permanentes e perguntar se elas ainda fazem sentido para a estratégia que vem pela frente.
Pense: se sua empresa estivesse desenhando sua cadeia hoje, diante das novas regras, faria exatamente as mesmas escolhas? A resposta pode ajudar a definir não apenas como ela vai se adaptar à Reforma Tributária, mas como pretende competir nos próximos anos.
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